Blog

Vacina contra HPV na vida adulta: por que vale a pena se vacinar em qualquer idade?

Dr. Márcio Jordão Napoli
· 7 min de leitura
Vacina contra HPV na vida adulta: por que vale a pena se vacinar em qualquer idade?
Neste artigo

“Doutor, eu não tomei a vacina contra o HPV quando era adolescente. Agora já é tarde?”

Não. E essa é a principal mensagem que quero deixar neste artigo: vale a pena se vacinar.

Já iniciou a vida sexual? Vacine-se.

Já teve HPV? Vacine-se.

Está em um relacionamento monogâmico há anos? A vacinação continua fazendo sentido.

Já tratou uma lesão de alto grau do colo do útero? A vacinação ganhou ainda mais importância.

Passou dos 45 anos? Eu não considero a idade, isoladamente, um motivo para abrir mão da prevenção.

É claro que existe uma diferença: quanto mais cedo a vacina é aplicada, maior tende a ser o benefício, principalmente quando administrada antes do primeiro contato com o HPV. Mas “é melhor vacinar cedo” não significa “depois não adianta mais”.

Essa confusão faz com que muitas mulheres adultas deixem de receber uma proteção que ainda pode ser importante.

Por que eu recomendo tanto a vacina contra HPV?

Porque o HPV é extremamente comum e está diretamente relacionado a diferentes doenças.

Existem muitos tipos de papilomavírus humano. Alguns provocam verrugas genitais. Outros, chamados de tipos de alto risco, podem causar alterações celulares que, quando persistentes, estão relacionadas ao desenvolvimento de câncer.

O mais conhecido é o câncer do colo do útero, mas o HPV também está associado a cânceres da vulva, vagina, ânus e orofaringe.

E temos uma ferramenta segura e eficaz para prevenir infecções por importantes tipos desse vírus: a vacina.

“Mas eu já tive relações sexuais. A vacina ainda vale a pena?”

Sim. Ter iniciado a vida sexual significa que você pode ter sido exposta ao HPV. Mas não significa que tenha entrado em contato com todos os tipos presentes na vacina.

A vacina nonavalente protege contra nove tipos de HPV: 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58. Você pode ter tido contato com um deles e continuar suscetível aos outros.

Estudos realizados em mulheres adultas mostram que a vacinação continua oferecendo proteção contra os tipos vacinais aos quais elas ainda não haviam sido expostas.

“Já tive HPV. Por que eu tomaria uma vacina contra HPV?”

Porque ter tido um tipo de HPV não significa ter tido todos os outros.

Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes deste artigo. Imagine que uma mulher tenha uma infecção pelo HPV 16. A vacina não eliminará aquela infecção. Mas isso não significa que ela esteja protegida contra HPV 18, 31, 33, 45, 52, 58 e outros tipos contemplados pela vacina.

Por isso: HPV positivo não é motivo para deixar de se vacinar.

A vacina é preventiva. Ela não funciona como tratamento da infecção que já está instalada, mas pode ampliar a proteção contra tipos aos quais você ainda é suscetível.

A vacina não trata o HPV que já existe, mas isso não diminui sua importância

Gosto de deixar essa diferença muito clara para minhas pacientes. A vacina contra HPV não é um medicamento para eliminar o vírus do organismo.

Se você tem uma infecção ativa por determinado tipo, a vacina não fará aquele HPV desaparecer. O papel da vacinação é outro: prevenir novas infecções pelos tipos contemplados pela vacina.

Vacina contra HPV na vida adulta: por que vale a pena se vacinar em qualquer idade? — imagem 2

“Já tive uma lesão NIC 2 ou NIC 3. Ainda preciso da vacina?”

Sim e hoje temos uma recomendação brasileira ainda mais clara para essas pacientes.

Em 2026, o Ministério da Saúde ampliou a vacinação contra HPV como estratégia de prevenção secundária para mulheres submetidas a tratamento excisional por NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ (AIS).

E existe um detalhe muito importante: nessa indicação, não há limite de idade. A vacinação é realizada em esquema de três doses (0, 2 e 6 meses) e tem como objetivo ajudar a reduzir o risco de recorrência de lesões de alto grau depois do tratamento.

“Estou em um relacionamento monogâmico. Por que eu deveria me vacinar?”

Esse vírus tem uma característica interessante: depois de uma infecção, ele pode deixar de ser detectado e permanecer em níveis muito baixos no organismo. Existem evidências de que infecções adquiridas anteriormente podem permanecer em estado de latência e voltar a ser detectadas muitos anos depois. Por isso, uma mulher pode apresentar novamente um teste positivo para HPV mesmo sem ter tido um novo parceiro sexual.

E isso é importante também por outro motivo: um HPV detectado durante um relacionamento monogâmico não permite concluir que houve uma infecção recente e muito menos que houve infidelidade.

A vacina não elimina um HPV latente e não deve ser apresentada como tratamento para impedir sua reativação.

O motivo para vacinar continua sendo a prevenção contra os tipos vacinais aos quais você ainda pode ser suscetível.

“Tenho mais de 45 anos. Ainda devo tomar?”

A vacina HPV9 está licenciada em bula dos 9 aos 45 anos.

Acima dos 45 anos, portanto, sua utilização é considerada off-label, ou seja, fora da faixa etária prevista na bula.

Mas isso não significa que, ao completar 46 anos, a vacina simplesmente deixe de produzir resposta imunológica ou que toda possibilidade de benefício desapareça.

As recomendações atuais da Sociedade Brasileira de Imunizações reconhecem que a vacinação acima dos 45 anos pode ser recomendada pelo médico após decisão compartilhada com o paciente.

Passar dos 45 anos não significa que seja tarde demais para pensar em prevenção contra HPV.

Então por que todo mundo fala em vacinar adolescentes?

Porque esse continua sendo o cenário ideal. Queremos vacinar antes da exposição ao HPV. Por isso, a vacinação de crianças e adolescentes é uma das estratégias mais importantes de prevenção. Quanto mais cedo, melhor.

Quem pode receber a vacina pelo SUS?

O SUS possui vacinação de rotina para determinadas faixas etárias e também contempla grupos com indicações específicas, de acordo com os critérios do Ministério da Saúde.

Entre eles estão pessoas imunossuprimidas, usuários de PrEP, vítimas de violência sexual, pessoas com papilomatose respiratória recorrente e, mais recentemente, mulheres tratadas por NIC 2, NIC 3 ou AIS após procedimento excisional.

Não estar contemplada em uma estratégia gratuita do SUS não significa que a vacinação não possa fazer sentido para você.

A vacina contra HPV é segura?

Sim. As vacinas contra HPV são amplamente estudadas e apresentam bom perfil de segurança.

Os efeitos adversos mais comuns são semelhantes aos observados com outras vacinas: dor, vermelhidão ou inchaço no local da aplicação. Algumas pessoas também podem apresentar dor de cabeça, febre, náusea, tontura ou cansaço.

Existe alguma situação em que eu não devo tomar agora? E a gravidez?

Durante a gestação, a vacinação contra HPV não é recomendada e deve ser adiada para depois da gravidez.

Se você iniciou o esquema e descobriu uma gestação, não precisa recomeçar tudo depois. As doses restantes são adiadas e o esquema pode ser completado após a gravidez.

E se uma dose tiver sido aplicada sem que você soubesse que estava grávida, isso não significa que exista indicação de interromper a gestação ou realizar alguma intervenção específica por causa da vacina.

Após a gravidez, a vacinação pode ser retomada. A vacinação também pode ser realizada durante a amamentação.

Vacina contra HPV na vida adulta: por que vale a pena se vacinar em qualquer idade? — imagem 3

Se você ainda não foi adequadamente vacinada contra o HPV, converse sobre vacinação. Não considere que já passou a sua idade.

Quanto mais cedo, melhor. Mas, se não aconteceu cedo, isso não significa que não deva acontecer agora.

A vacinação contra HPV é uma das ferramentas que temos para prevenir doenças relacionadas a um vírus extremamente comum.

Se você não foi vacinada, não completou o esquema, já teve HPV, tratou uma lesão no colo do útero ou passou dos 45 anos, podemos conversar sobre como incluir a vacinação na sua estratégia de prevenção.

E existe uma última mensagem que não pode ser esquecida: vacinar-se não substitui o acompanhamento ginecológico nem o rastreamento do câncer do colo do útero. Vacinação e rastreamento são estratégias diferentes e complementares.

Conteúdo informativo e educacional. Este artigo não substitui uma avaliação médica individualizada.

Dr. Márcio Jordão Napoli

Médico Ginecologista e Obstetra

CRM-SP 62610

[AGENDAR UMA CONSULTA]

Referências científicas e recomendações

Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Calendário de Vacinação SBIm Adulto 2026–2027.

Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS. Vacinação contra HPV como estratégia de prevenção secundária para mulheres tratadas por NIC 2+ e AIS.

Muñoz N, et al. Safety, immunogenicity, and efficacy of quadrivalent human papillomavirus vaccine in women aged 24–45 years: a randomised, double-blind trial. The Lancet.

Castellsagué X, et al. End-of-study safety, immunogenicity, and efficacy of quadrivalent HPV vaccine in adult women 24–45 years of age. British Journal of Cancer.

Gravitt PE, et al. Estudos sobre detecção e possível reativação de infecções previamente adquiridas por HPV em mulheres adultas.

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). HPV Vaccination Recommendations and Vaccination Considerations.

Autor
Dr. Márcio Jordão Napoli
Continue lendo

Outros artigos para você.